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Por Um Punhado de Spaghetti Westerns - PPSW

A Fistful of Spaghetti Westerns

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Keoma - 1976

Posted by Henrique Sousa on May 10, 2012 at 10:30 PM
  • Título original: Keoma
  • Diretor: Enzo G. Castellari
  • Elenco: Franco Nero, Woody Strode, William Berger, Donald O'Brien, Olga Karlatos, Orso Maria Guerrini, Gabriella Giacobbe, Antonio Marsina, Gianni Loffredo (como John Loffredo), Leon Lenor, Joshua Sinclair, Leonardo Scavino, Wolfango Soldati, Massimo Vanni, Victoria Zinny, Alfio Caltabiano, Giovanni Cianfriglia (como Ken Wood), Domenico Cianfriglia, Roberto Dell'Acqua, Angelo Ragusa, Riccardo Pizzuti, Pierangelo Civera.
  • Música: Guido & Maurizio De Angelis

Keoma - O gênero Spaghetti Western já dava seus últimos suspiros quando presenciou o lançamento de um dos maiores e melhores filmes de todo o ciclo. Quando Keoma estreou nos cinemas, em 1976, já haviam se passado 8 anos de “Era Uma Vez no Oeste” (C'era una volta il West), e 10 anos de “Três Homens em Conflito” (The Good, The Bad and The Ugly). É absolutamente verdadeiro afirmar que, nessa ocasião, o Spaghetti Western não vivia exatamente o seu momento mais glorioso. Ao contrário, o gênero estava na UTI, em seu estado terminal. Dessa forma, para muitos, o lançamento deste ótimo filme surgiu como uma “salvação” ou, pelo menos, com uma grande responsabilidade em poder oferecer um “algo mais” ao sub-gênero, ao gênero e, acima de tudo, ao cinema. Sem dúvida, o filme de Enzo G. Castellari estava coberto de muitas razoáveis razões, embora a responsabilidade fosse grande demais sobre um único filme, visto como o derradeiro sopro de vida de todo um gênero, mesmo que todas as suas razões fossem todas muito poderosas.

A trama gira em torno da figura do cavaleiro solitário, de poucas palavras, rápido e mortal, que tão convincentemente havia sido encarnado por Clint Eastwood, na trilogia do “Homem Sem Nome”, de Sergio Leone. A diferença está no fato de Keoma ser mestiço, meio branco, meio índio, além de ser o herói que dá nome ao título do filme. Em vez de um sombreiro ou um poncho, o que ele usa é uma vestimenta indígena, de peito aberto, uma fita amarrada ao seu vasto cabelo, barba volumosa e olhos azuis. Todas essas características colocam Franco Nero perfeito para o papel. A verdadeira natureza do personagem pode ser observada no momento em que ele usa o recurso do silêncio para observar e disparar de modo rápido e mortal.

Como fato curioso, vale destacar que Franco Nero, neste mesmo ano, também estrearia outras cinco produções. Dez anos antes ele foi Django, no filme homônimo de Sergio Corbucci. Sob o comando de Castellari, ele suporta o peso da função com uma interpretação de poucas palavras e muita ação, submetendo ao personagem um elo entre místico e selvagem, além de carismático e evasivo ao mesmo tempo.

O filme narra a história de Keoma, um mestiço, meio branco, meio índio, adotado por William Shannon (William Berger), quando criança, logo após o massacre de toda a sua tribo. Como único sobrevivente, o garoto Keoma é adotado por Shannon, mesmo contra a vontade de seus outros três filhos legítimos, que hostilizam e maltratam o novo integrante da família durante toda a sua infância, por entenderem que tiveram roubado o carinho do pai.

O filme começa com o regresso de Keoma, já adulto, acompanhado de todas as lembranças da infância, passando como flashes, em sua mente. Ele encontra uma terra suja, degradada e assolada por uma peste, cujos doentes são mortos ou isolados fora da cidade. A região é dominada, com mãos de ferro, por Caldwell (Donald O'Brien) e seu bando, entre os quais se incluem os três “meio-irmãos” de Keoma, os mesmos que sempre o odiaram quando criança. A chegada de Keoma acaba sendo providencial para mudar o destino de uma mulher grávida que, como todos os outros infectados, está em trânsito para ser confinada em uma espécie de campo de concentração. A partir daí, tem início um jogo mortal onde a mulher, o empenho de Keoma em defendê-la de todo o perigo, ao mesmo tempo em que defende a todos, acaba sendo o ponto forte de uma trama que segue cheia de muita tensão, à base de duelos, perseguições e fugas inesperadas.

Com uma aparência sombria, quase profética, Keoma se encaixa perfeitamente na tradição do pistoleiro infalível, iniciado pelo tipo de herói também calado e mortal interpretado por Clint Eastwood. No caso de Keoma, uma diferença marcante está no fato de manejar, como ninguém, a machadinha, uma vez que possui sangue índio, e também por sua força e eficiência na luta corporal. O expectador tem a oportunidade de observar a exuberância das cenas de violência onde Castellari se delicia com a câmera lenta, mostrando uma influência muito mais próxima de Peckinpah do que de Leone, mesmo tendo tomado emprestado um punhado de close-ups com os quais não chega a incomodar.

A maestria do diretor também pode ser bastante elogiada, sob um ótimo pulso narrativo, que atinge sua expressão máxima, como em todo epílogo, com uma montagem paralela que chega a deixar um vazio na ação para multiplicar os ecos agonizantes dos gritos da parturiente.

O filme também possui um clima místico, que pode ser facilmente identificado já em seu início, por uma sequência sugestiva e bem encaixada, e que se repete em várias ocasiões, através do personagem da bruxa. Por outro lado, num clima mais sentimental, vemos flashes do passado de George (Woody Strode), numa época em que a vida era bem melhor.

É claro que em toda a obra, dois são os destaques notadamente relevantes: o primeiro é o vilão Caldwell, interpretado por Donald O’Brien que, com seu bando de ex-confederados, parece um pouco brando demais para um caçique de uma terra tão dura. O segundo é a trilha sonora, de Guido & Maurizio De Angelis, que merece todos os aplausos, especialmente por se encaixar de modo perfeito desde a abertura até os momentos de ausência de diálogos, aqui conduzida magistralmente nas vozes de  Susan Duncan Smith & Cesare De Natale.

Não é, no entanto, nem no aspecto formal, nem no roteiro ou argumento, que se deve buscar as virtudes de Keoma, que se apresenta montada sobre toda uma estrutura convencional, e sim, pelo fato de se apresentar sob a responsabilidade da poderosa presença de Franco Nero, diante das câmeras, e de Enzo G. Castellari por trás delas.

No Brasil, Keoma mereceu quase todos os cuidados necessários para um lançamento de um grande filme. A qualidade de imagem é ótima, a dublagem é boa, e o conteúdo de informações adicionais é para seguidor nenhum reclamar. O material oferece, inclusive, opções de formato de tela. O ponto negativo (o ponto fraco de sempre), fica por conta da capa do dvd, que poderia ser bem melhor. Nesse quesito as distribuidoras nacionais ainda se encontram totalmente fora de sintonia. Fora isso, todo o material é uma verdadeira pérola, digna da coleção de todo e qualquer fã do gênero.

Categories: Resenhas


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