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Por Um Punhado de Spaghetti Westerns - PPSW

A Fistful of Spaghetti Westerns

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A morte anda a cavalo

Posted by Henrique Sousa on January 19, 2012 at 6:50 PM
  • Diretor: Giulio Petroni
  • Também conhecido como: D'homme a home (França) | La Mort était au rendez-vous (França) | A Morte Anda a Cavalo (Brasil) | Śmierć jeździ konno (Polônia) | Hämndens timme (Suécia) | Kosto odottaa (Finlândia) | Oi 5 simademenoi tou El Viento (Grécia) | Death Rides a Horse (U.S.A.) | Viva Django, Man to Man | Two Deadliest Guns Alive | Vita, morte e vendetta (Itália) | Die Rechnung wird mit Blei bezahlt (Alemanha) | Von Mann zu Mann (Alemanha) | A morte vem a cavalo (Portugal) | De hombre a hombre (Espanha) | Elenco: Lee Van Cleef, John Phillip Law, Luigi Pistilli, Anthony Dawson, Jose Torres, Carla Cassola, Archie Savage, Mario Brega, Giuseppe Castellano, Franco Balducci, Romano Puppo, Guglielmo Spoletini, Elena Hall, Natale Nazzareno, Jeff Cameron, Felicita Fanny, Ignazio Leone, Nerina Montagnani, Carlo Pisacane, Nino Vingelli, Bruno Corazzari, Angelo Susani, Walter Giulangeli, Remo Capitani, Mario Mandalari, Ennio Pagliani, José Terron, Giovanni Petrucci, Claudio Ruffini, Vivienne Bocca, Giovani Scarciofolo, Richard Watson
  • História: Luciano Vincenzoni
  • Roteiro: Luciano Vincenzoni
  • Fotografia: Carlo Carlini [Technicolor, Techniscope 2,35:1]
  • Música: Ennio Morricone
  • Canção: "Death Rides a Horse" cantada por Raoul
  • Produção: Alfonso Sansone, Henryk Chorscicki

Da uomo a uomo - Após o roubo de 200.000 dólares (em ouro) de uma diligência, quatro membros desta perigosa quadrilha de assaltantes procuram abrigo em uma fazenda durante uma noite de tempestade. Na tentativa de defender sua familia (mulher e filhos), o fazendeiro é baleado. Ato contínuo, os bandidos violentam mãe e filha, e escapam após atearem fogo na casa. O filho mais novo da familia, que havia ficado escondido na casa, acaba sendo salvo das chamas a tempo por um quinto bandido. Após isso, o forte choque produzido no garoto, de apenas cinco anos, ao presenciar a morte de toda a sua familia, fará com que ele carregue, por toda a sua vida, a férrea determinação de acabar com todos os bandidos responsáveis pela morte de seus país e sua irmã.

Com esta introdução, ocorrida 15 anos antes, o director Giulio Petroni exibe, logo de cara, uma das subtramas que o expectador irá observar no filme: a vingança, que o joven Bill vai perseguir até encontrar os assassinos de seus país e irmã. E isso vai ocorrer ao mesmo tempo em que outra vingança estará em andamento, perseguida pelo experiente Ryan, pela traição de seus companheiros de armas, também 15 anos atrás..

Uma vez mais um diretor aborda um dos temas mais utilizados nos spaghetti westerns dos anos sessenta e setenta: a vingança, como fator central e que move os personagens protagonistas, incluindo suas consequências na vida e em suas próprias ações. É bom que se diga que o tema já havia sido abordado pelo grande Sergio Leone, anos antes, quando estabeleceu como ideal para apimentar os enredos dos spaghetti western. Na abordagem de Leone estão Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in piú, 1965) e Era uma vez no Oeste (C´era una volta il west, 1968 ). que foi considerado o ponto de partida, e que influenciou, em filmes posteriores, muitos diretores que se dedicaram ao estilo, e isso, em até mais de um sentido. Em A Morte Anda a Cavalo, a direção de Giulio Petroni é bastante segura. O diretor mantém com bom pulso as cenas de ação e consegue marcar um bom rítmo durante toda a narrativa, conseguindo manter a atenção do espectador durante todo o tempo. Com relação à parte técnica, ela se desenvolve de modo perfeito,, onde o uso do formato panorâmico é utilizado da forma mais ampla possível.

No que diz respeito aos dois personagens protagonistas, algo de grande importância lhes foi tirado, como a vida de sua família, no caso do jovem Bill, e 15 anos de sua vida na prisão, no caso do pistoleiro Ryan, e isso representa a razão pela qual ambos estarão determinados a fazer justiça com as próprias mãos. O jovem Bill age impulsivamente em sua forma de saciar seu desejo de vingança, algo doloroso em sua alma que, em razão de sua inexperiência, o leva à beira da morte. Por outro lado, Ryan, muito mais experiente, atua de uma forma mais paciente e calculada. A novidade e originalidade na hora de abordar o tema da vingança pessoal como uma forma de justiça, nada poética, é que as duas histórias paralelas e independentes dos dois personagens convergirão, causando influência direta em um e em outro, e mudando, desta forma, suas vidas que, ao final de suas buscas já não serão mais as mesmas. Em razão disso, se separarão para sempre, de forma irremediável. No que diz respeito à estrutura do filme, podemos, por assim dizer, que ela é circular. A trama começa com a aparição, em separado, dos dois personagens; o encontro surgirá em seguida, o que levará a uma etapa intermediária, mais ampla e completa, que ocupa praticamente toda a duração do filme, momento no qual se desenrolam as duas histórias de vingança, unidas indefectivelmente mediante a relação que se estabelece entre ambos os personagens (o ensinamento que recebe Bill por parte de um astuto Ryan). Ao final da história se encerrará o referido círculo, com a cena na qual Bill e Ryan se defrontarão em um último e amargo encontro.

A alta qualidade da trama descansa, então, sobre um roteiro exemplar, sem tempos perdidos (escrito por Luziano Vincenzoni), que nesse caso, não ocorre de forma medíocre como outros roteiros tão fundamentais e básicos da safra spaghetti western, como os de Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in piú;), Três Homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo), Os violentos vão para o inferno (Il mercenario) ou Quando explode a vingança (Giù la testa). O começo do filme é exemplar e vai direto ao ponto; traz um detalhado prólogo explicativo que será determinante para todas as ações posteriores, resultando em uma elipse a partir da qual, assistimos aos treinamentos, no manejo das armas, do jovem Bill. Diante disso pode-se notar toda a expressão da determinação do personagem. Imediatamente a seguir, o expectador assiste a liberação de Ryan de uma penitenciária na qual cumpriu pena por 15 anos. Bem neste ponto, o expectador atento também irá notar que o personagem de Ryan possue a mesma determinação, tal como se expressa na cena onde ele recebe seus pertences, na sala do diretor da prisão: “Ryan: Minha arma… obrigado. Agora as balas. Director: As balas? Ryan: 27… há 15 anos você as deixou em uma gaveta inferior. Director: 27… você tem uma boa memória. Ryan: Bem, às vezes não é tão difícil. Ainda tenho 6 em minha arma, e 21 em meu cinturão. Se não tivesse me cruzado 2 vezes, a conta seria um pouco diferente”. Os dois personagens se encontram pela primeira vez na cena seguinte, quando Bill se depara com Ryan observando as tumbas de seus pais: “Bill: O que posso fazer por você?. Ryan: Faz tempo que não venho por aqui. Tudo mudou. Seus pais?. Bill: Sim, a minha familia inteira. Ryan: Sinto muito, eu ouvi falar disso.”. Essa estrutura circular do filme, referida anteriormente, rica em detalhes e diálogos inesquecíveis (é bom que se diga que, muitos dos quais foram fornecidos pelos próprios atores protagonistas), também teve alguma ou outra cena temperada com uma boa pitada de humor, necessária para aliviar a tensão da própria trama. A este respeito são memoráveis as cenas da plataforma de trem, entre Bill e o chefe da estação, bem como uma das melhores do filme, aquela em que Ryan vai resgatar o joven Bill, que está enterrado até o pescoço, com a boca cheia de sal e uma tigela de água ao lado, sob um sol escaldante.

Uma outra vertente tratada é a relação que se estabelece entre Ryan e Bill, e que vai evoluindo ao longo da história, deixando um resíduo de amargura ao final da mesma. Uma relação extraída do modelo estabelecido por Sergio Leone em alguns de seus filmes, especialmente em Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, 1964) e Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in piú, 1965), e em menor escala em Era uma vez no Oeste (C´era una volta il west, 1968 ), e que repercutiu em alguns filmes posteriores, sendo El halcón y la presa (La resa dei conti, 1966), este A morte anda a cavalo (Da uomo a uomo, 1967) e O dia da ira (I giorni dell´ira, 1967) os mais representativos e com as mais altas notas de qualidade. Este modelo de relação paternal que se estabelece entre homens de distintas gerações, com um objetivo comum e métodos tão díspares, utilizados com o fim de obter sucesso em uma missão, alcança neste filme, de Giulio Petroni, um peculiar sentido paternal, quando vemos Ryan considerar Bill como a um filho (cena reveladora nesse sentido se nota quando Ryan confessa a Bill: “Estava pensando que quisera ter um filho como você, porque qualquer día me meterão uma bala nas costas, e claro, ninguém poderá vingar-me”;).

O personagem de Lee Van Cleef no filme de Giulio Petroni é muito parecido ao que realizaria posteriormente em O dia da ira (I giorni dell´ira, 1967) (um pistoleiro que instrui e educa um jovem pistoleiro para que se vingue das pessoas que lhe humilharam durante anos, interpretado por Giuliano Gemma). Porém, há diferenças entre este Ryan e o malvado e astuto Frank Talby. Em A Morte anda a cavalo o personagem de Lee Van Cleef é mais ameno em sua personalidade, algumas vezes parecendo um pistoleiro sem escrúpulos, e em outras, deixando aflorar uma humanidade que estava latente embaixo da dura e fria coberta.

No aspecto atuação há de se destacar, acima de tudo, a presença de Lee Van Cleef, um ator secundário em Hollywood, que foi redescoberto por Sergio Leone quando já estava em decadência, e que lhe rendeu uma segunda oportunidade, muito bem aproveitada pelo ator de nariz adunco e olhos de serpente, requisitado desde então para papéis de malvado. Lee Van Cleef (em seu melhor momento artístico) vínha de rodar Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in piú, 1965), Três homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966) de Sergio Leone, e El halcón y la presa (La resa dei conti, 1966) de Sergio Sollima, quando começa a rodar, no final de 1966, A morte anda a cavalo (Da uomo a uomo, 1967) em Roma. A partir de janeiro de 1967 as filmagens mudam para Almería. O trabalho que realiza seu “parceiro”, John Philip Law, é louvável, apesar de algumas deficiências próprias de sua curta carreira cinematográfica (antes deste filme, só havia trabalhado em meia-dúzia de papéis de pouca importância). Sem dúvida ele aprendeu muito neste trabalho com Lee Van Cleef, conforme revela em uma entrevista quando lhe foi perguntado como foi sua colaboração com Cleef: “Lembro de uma vez que bebíamos juntos. Lee olhou para mim com seu olhar de aço e disse: 'John, você é como uma criança grande. Deixe-me mostrar-lhe como beber em um copo. Em primeiro lugar, você o pega lentamente. Você o olha lentamente. E o bebe muito, muito lentamente”. Perguntei-lhe onde havia aprendido, e me respondeu que havia aprendido com John Wayne. O estilo de John Wayne é muito simples: fala lentamente, caminha lentamente e não estraga o cenário! (risos). Me encantavam os personagens interpretados por Lee, duros como o couro. Seu jogo corporal em seus filmes me havía marcado intensamente. Tudo passava pelo olhar, o gesto ou a atitude… Nós nos damos muito bem, e trabalhamos fortemente para abreviar e melhorar nossos diálogos. Também foi nossa a idéia do título “Da uomo a uomo”. A princípio o filme se intitulava “Duelo en el viento”… Lee rodava bem pouco de seus personagens, na verdade. Quero dizer que como ainda carregava as lesões de seu acidente, boa parte do papel era interpretado pelo dublê de ação, que era Romano Puppo. Lee aparecia apenas para os primeiros planos, ou quase… Depois deste filme conservamos uma boa amizade. Inclusive participamos juntos em um spot para a promoção do turismo no Canadá!. Seu realizador era um fã de “De hombre a hombre” e fez todo o possível para nos reunirmos de novo”.

Para complementar o elenco, aos dois protagonistas foram somados, por conseguinte, uma série de atores secundários, muito versáteis, que se complementavam adequadamente. Muitos deles já haviam trabalhado previamente nos filmes de Sergio Leone, o que representava um vínculo a mais com o universo do diretor de Por uns dólares a mais (Per qualche dollaro in più;). Giulio Petroni era um apaixonado pelo western e, neste trabalho, essa experiência pode assim ser resumida nas palavras de John Philip Law: “Se tratava de seu primeiro western e ele estava muito nervoso. Até então, aparentemente, somente havia feito comédias dramáticas, como “Un domingo de verano” com Jean Pierre Aumont e Ugo Tognazzi. Giulio Petroni estava muito influenciado pelos westerns de Sergio Leone, com Clint Eastwood, e cada vez que me chamava no set, gritava “Clint!”, por engano. E eu lhe dizia “Sem problemas, Sergio!” (risos).

Mas ainda haviam outros elementos que vinculavam o filme de Giulio Petroni com Sergio Leone. Por exemplo, a trilha sonora, obra de um dos músicos mais talentosos da história do cinema. Isso sem falar que também era um dos mais prolíficos e ecléticos. A música de Ennio Morricone estava em pleno processo de experiência tanto a nivel de composição como a nivel de instrumentação, algo que já se notava nos filmes de Sergio Leone e que seguiria evoluindo em seus trabalhos posteriores. Neste filme a música atua como um personagem, mas sem ser visto, ao mesmo tempo em que se adequa perfeitamente ao ritmo e à estrutura do filme.

Escasso em sua filmografía (apenas 13 filmes), Giulio Petroni começou no mundo do cinema realizando alguns documentários e trabalhando como ajudante de direção. Em 1959 realizou seu primeiro longa-metragem, uma comédia dramática, seguida de outras três comédias. Depois de alguns anos trabalhando para a RAI, retorna ao cinema com o primeiro de seus cinco westerns (um género que lhe marcou muito), A morte anda a cavalo (Da uomo a uomo, 1967) (um de seus melhores filmes), seguido de Quem dispara primeiro? (… e per tetto un cielo di stelle, 1968 ) (seu pior western), Tepepa (Tepepa, 1968 ), no qual se nota sua origem política (pertencía ao partido comunista desde a Segunda Guerra Mundial), A noite das serpentes (La notte dei serpenti, 1970) e Meu Nome é Providence - Caçador de Recompensas (La vita, a volte, é molto dura, vero Provvidenza?, 1972) (um western realizado na decadência do género e imitando a fórmula dos filmes de Trinity). Depois de mais duas comedias satíricas, realizaría seu penúltimo filme, Labios lúbricos (Labbra di lurido blu, 1975), um filme de culto escrito, montado e produzido pelo mesmo diretor e que retrata a crise da burguesía italiana. Seu último filme foi Poseída (La profezia, 1978 ), uma imitação de O bebê de Rosemary (Rosemary´s baby, 1968 ) e de O exorcista (The exorcist, 1973), realizada com muito pouco orçamento, mesmo com a sempre grata presença de Marisa Mell, embora o diretor italiano negue a paternidade do filme. Nessa época ja não se dedicava ao cinema, e sim ao que mais gostava : o mundo da literatura.

É bom destacar, como curiosidade, que o grande Quentin Tarantino rendeu honrosas homenagens ao trabalho de Giulio Petroni em seu filme mais multirreferencial realizado até o momento: Kill Bill. Precisamente o nome de Bill que aparece no título original, já faz referência ao personagem interpretado por John Philip Law, no filme de Giulio Petroni, porém, não será esta a única referência utilizada por Tarantino. Em uma das primeiras cenas de Kill Bill vol. 1 (Kill Bill vol. 1, 2003) na qual “a noiva”, numa luta de morte, enfrenta uma das “víboras letais”, Quentin Tarantino usa uma técnica de montagem muito similar à que empregava Giulio Petroni quando o jovem e vingativo Bill se encontrava cara a cara com os assassinos de sua família, e que consistia em uma superposição de imagens do momento do assassinato da família de Bill com a cara do protagonista. Desta forma o diretor italiano quería fazer constância do trauma que motivava Bill a vingar-se da ação violenta e brutal cometida pelos bandidos. Em outra das subtramas de Kill Bill vol. 1 (Kill Bill vol. 1, 2003) (realizada com técnicas de animação bem ao estilo mangá;) se narra a origem do personagem O-Ren Ishii, uma das “víboras letais” (encarnada na tela por Lucy Liu), em uma cena similar à do assassinato da família de Bill. Também, na cena da “Casa das folhas azuis”, Quentin Tarantino utiliza o tema principal da trilha sonora do filme de Giulio Petroni, intitulada “Death rides a horse” (e que corresponde ao título de lançamento do filme nos EUA).

No Brasil, o filme de Giulio Petroni, distribuído pela Ocean Pictures, foi lançado com o título A morte anda a cavalo, cuja edição é digna de todos os elogios. A começar pelo formato de tela: widescreen. Aliás, essa questão do formato de tela inadequado (tela cheia), tem sido um problema constante em muitos lançamentos de filmes da safra spaghetti, em território brasileiro. Felizmente, este erro imperdoável não ocorreu com este ótimo filme. Os admiradores do gênero podem ficar tranquilos, pois, a cópia brasileira apresenta excelente qualidade de imagem, com idiomas em inglês e português, e legendas em português. .

Categories: Resenhas


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